Carlos Cachaça na verdade não era um boêmio, era um sambista. Sabia beber com moderação, mas tinha preferência pela cachaça brasileira, daí o apelido para o diferenciar dous outros tantos Carlos que existiam no morro da Mangueira. Diziam que Carlos Cachaça era um jovem que sabia beber sem “sofrer alteração”  ou seja, bebia mas não se deixava embriagar. Uma virtude de quem sabia zelar pela diversão e pelo trabalho.

Mas o diferencial de Carlos Cachaça não era apenas este: foi o primeiro compositor a inserir elementos históricos nos sambas de enredo que é uma norma até hoje.

Morou na Mangueira desde que nasceu, em uma das casas da Companhia Estrada de Ferro Central do Brasil, onde o pai trabalhava. Seguindo os passos do pai, trabalhou na Rede Ferroviária Federal até se aposentar e dizem que trabalhou por quarenta anos sem faltar um dia. O ofício também parece ter inspirado uma canção “Intinerário” , um samba doído de amor.

Grande amigo de Cartola, foi um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros e da Estação Primeira de Mangueira. Aliás, o carnaval era uma das suas grandes paixões.

Sua obra musical é sucinta mas cheia de emoção numa narrativa poética do seu tempo. Os versos não eram fantasiosos, mas melódicos e totalmente voltados ao sentimento da realidade da época. de  traduz o seu tempo, uma narrativa poética do que viveu. Sem fantasias, seus versos e melodias contam um pouco do que viu e sentiu.

Em 1923 compôs seu primeiro samba “Ingratidão”. Era um dos únicos com quem Cartola aceitava fazer parceria e em 1932, um pouco antes do exílio de Cartola na baixada fluminense, compuseram Na Floresta a sua primeira parceria com Cartola.

O retorno de Cartola ao morro da mangueira na época do Zicartola, rendeu muitas outras parcerias e em 1976 Carlos Cachaça lançou seu único disco solo

O único disco solo lançado pela gravadora Continental veio em 1976 com o nome Carlos Cachaça e inclui  entre 12 músicas, grandes canções como “Amor de Carnaval”, “Juramento Falso”, e “Quem me Vê Sorrindo”, todas autorais ou em parceria com Cartola.

Chorou e lamentou a morte do amigo e companheiro de vida Cartola e, logo após este triste episódio,  em  dezembro de 1980 aventurou-se pelos escritos literários, lançado o livro “Fala Mangueira”, em co-autoria com  Marília T. Barbosa da Silva e Arthur L. Oliveira Filho, pela editora José Olympio.

Suas canções também foram interpretadas por outros grandes nomes do samba: “Não Quero Mais Amar a Ninguém” (com Cartola e Zé da Zilda) foi gravada por Aracy de Almeida (1937), regravada por Paulinho da Viola em 1973 no LP “Nervos de Aço” (Odeon) e Beth Carvalho em 1992 no LP “Pérolas – 25 anos de samba”. Aliás nos anos 90 vários dos seus sambas foram redescobertos e regravados.  Época em que vários dos seus sambas passam a ser “redescobertos”.

Ao completar 95 anos, foi homenageado, na quadra Mangueira por ser o único fundador vivo da Agremiação.

Carlos Cachaça teve uma vida ativa, disciplinada, ritmada pelo samba e cheia de histórias para contar: Manteve-se em  atividades até a morte em 1999,  aos 97 anos.

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