Nos anos de 1900, os negros, que eram maioria no nosso país, não tinha espaço para celebrar seus costumes.

A liberdade prometida com a abolição da escravatura em 13 de maio de 1888, parecia mais uma utopia: no papel todos eram livres, não havia mais trabalho escravo. Mas na prática, na vida real, não era bem assim: cabiam aos negros realizar o trabalho mais pesado a troco de uma ninharia de salário e sem muito espaço para ser quem eram.

Celebrar a sua cultura nestes temos, era prisão certa. Andar com instrumentos e pertencer a bandas era considerado infração pela lei de 1890.

Trinta anos depois da abolição da escravatura, nos anos de 1920, a repressão ainda continuava.

Mas havia no Bairro do Estácio no Rio de Janeiro, uma “baiana arretada”. Uma Mulher Negra, Mãe de Santo, cozinheira, batalhadora, embora pequena em estatura, era uma grande mulher e fez valer a sua força para mudar a história de repressão à cultura negra.

Seu nome era Hilária Batista, mais conhecida como Tia Ciata.

Mas Tia Ciata não foi a única: numa sociedade patriarcal onde as mulheres tinham que ser “belas, recatadas e do lar”, a partir de Tia Ciata, muitas outras mulheres nomes marcaram a história do nosso samba.

Para mostrar bem a importância das mulheres do samba, vamos tratar o samba como se fosse um ser humano:

Tia Ciata – A Mãe

Imagine que o Samba é uma pessoa: Um menino negro de olhos grandes e envolventes, com seu cabelo crespo, um sorriso largo no rosto, fazendo fila com dribles desnorteadores numa pelada no meio da rua, com uma bola de meias.
Alguém então, pra tentar desequilibrá-lo ou pra ofendê-lo, com a infeliz ilusão que o samba, não tem mãe grita:
_ Samba, quem te pariu?!
Sabe qual seria a resposta?
_ Tia Ciata, ô mané!

Sim. Tia Ciata é a grande mãe do samba: Foi no quintal da casa de Tia Ciata que o samba nasceu, foi alimentado, ganhou força, deu seus primeiros passos e virou o menino travesso que driblou a repressão, invadiu as rádios sendo apresentado ao Brasil através de “Pelo Telefone”.
Logo o mundo, estava encantado com o ritmo inebriante. Mas quem o levaria pelo mundo? Uma tia muito especial:

Clementina de Jesus – A Tia

Clementina participava das Rodas de Samba na Casa de Tia Ciata quando o samba ainda era só um embrião. Durante muito tempo ficou no anonimato mas, não estava sozinha: o Samba sempre foi seu amoroso companheiro, como um sobrinho querido. E sofreu ao levar o “sobrinho” Samba para o trabalho: Doméstica na casa de uma portuguesa, contava que, quando a patroa a ouvia cantar, dizia por puro preconceito e certamente inveja: não dá pra saber se você está cantando ou miado.

A voz rouca, grave, era a expressão de um Brasil de forte herança africana com uma cultura autêntica e sem igual. Comparada a cantoras emblemáticas do Blues, do Jass e do Gospel Americano ( Bessie Smith, Mahalia Jackson e Billie Holliday), Clementina de Jesus descoberta pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho, apareceu pela primeira vez no Projeto Menestrel e nunca mais foi esquecida.

Mostrou a autenticidade e beleza do Samba, no Festival de Artes Negras de Dacar, no Senegal, e também representou o Brasil no Festival de Cinema de Cannes, em 1966.

Nesta época, o Samba já não era mais um menino franzino, era um homem feito que ganhou o respeito do mundo graças a ilustre tia, Rainha Quelé, Clementina de Jesus. Porém mesmo conhecido e admirado no mundo, no Brasil, o Samba ainda sofria discriminação e era considerado “um suburbano” pela “elite” brasileira.

Mas, eis que surge uma fada madrinha disposta a mudar isso.

Beth Carvalho – A Madrinha

A sua voz também era capaz de silenciar os mais falantes e assim como a voz, Beth Carvalho era forte e decidida: Moradora da zona sul do Rio de Janeiro, abraçou o samba como a música da sua vida e não só isso: se prontificou a levar o samba para além do subúrbio.

Para isso, saía da Zona Sul para se juntar a roda de samba que se formava debaixo da Tamarineira, no Cacique de Ramos; Subiu o morro da Mangueira atrás de Cartola, fez as “Folhas Zecas” de Nelson Cavaquinho voarem pelo mundo e deu o seu recado ao “afilhado” samba: você é grande e fará história.

Com as bênçãos da madrinha, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Almir Guineto, Fundo de Quintal e muitos outros iniciaram suas carreiras e alcançaram sucesso.

Graças a madrinha, o samba desceu o morro, saiu do subúrbio, pegou o trem, desembarcou na Zona Sul. Alçou voo pelo Brasil e foi parar em Marte com a canção “Coisinha do Pai” (Jorge Aragão/Almir Guineto/Luis Carlos) para despertar o robô “o robô Sojourner.

A Promessa foi cumprida pela madrinha Beth Carvalho, mas, em sua trajetória, o Samba também aprendeu muitas lições que lhe foram dadas por outra ilustre mulher:

Dona Ivone Lara – A Professora

A vida de Dona Ivone Lara, não foi nada fácil, perdeu o pai, a mãe, o marido e mesmo assim manteve a sua serenidade e a sua firmeza. Amava o samba como a um filho e lhe deu valiosas lições.

Dona Ivone Lara aprendeu a cantar cavaquinho com o Tio e o samba cresceu sob o seu olhar.
Logo que mudou-se para Madureira frequentava a Escola de Samba Prazer da Serrinha e dedicou o seu talento ao samba compondo para a Escola além de partidos-altos, que eram mostrados a outros sambistas, pelo primo Fuleiro (também compositor) como se fossem dele, pois por ser mulher, não podia ser sambista.

E foi com Dona Ivone Lara que o samba aprendeu uma das suas mais valiosas lições: o samba não pode nunca dar espaço ao preconceito.

Esta valiosa lição da professora D.Ivone Lara mudou o samba: ele abriu as portas para que as mulheres pudessem mostrar o seu talento e não só cantar, mas também compor.

E o samba passou não só a respeitá-las mas a amar ter as mulheres no comando das rodas, dos shows, da percussão:
Hoje as mulheres assinam seus sambas, comandam as rodas, dão show no comando da percussão e os palcos, são delas!

Assim, o samba nasceu, cresceu, fez história: pelas mãos das mulheres, aquele menino negro, franzino mas cheio de vida, cresceu:

Enamorado pela força, garra e talento das mulheres, o samba viveu um longo caso com Clara Nunes, teve uma filha com Elis Regina a quem chamou de Maria Rita. Ouviu os conselhos de Jovelina Pérola Negra, deu uma volta ao mundo com Alcione, caiu nos braços do povo com Eliana de Lima, Dorina, Teresa Cristina, Nilze Carvalho, Maria Menezes e muitas outras mulheres que não deixaram e certamente não deixarão o samba morrer.

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