Nelson Sargento, autor de sambas memoráveis como “agoniza mais não morre” (1978) e também presidente de honra de uma das mais importantes Escolas de Samba do Brasil, a Estação Primeira de Mangueira, vive um momento de agonia em função de dois grandes males que assolam o Brasil: a pandemia do coronavírus e a falta de valorização da cultura brasileira.

Todos sabemos que a pandemia afetou diversos artistas no cenário musical, inclusive no samba. Mas o caso de Nelson Sargento desperta um sentimento ainda maior de tristeza:

É que Nelson Sargento prestes a completar 96 anos de vida, muitos, senão todos, dedicados ao Samba patrimônio imaterial do Brasil, anuncia com pesar que está colocando a venda seus preciosos ternos verde rosa, inclusive o que usou para desfilar ao lado de Maria Bethânia no Carnaval 2016, em um dos desfiles mais memoráveis que fez da Estação Primeira de Mangueira, Campeã do Carnaval carioca daquele ano.

E não são só os ternos, a valorosa coleção de 150 discos de vinil também estão colocados a venda.

Não podemos deixar de lembrar, que o acervo sempre foi exibido por Nelson Sargento com orgulho inclusive no seu canal no Youtube:

E é deste orgulho da própria memória, da própria história que Nelson Sargento está sendo forçado a se desfazer para sobreviver.

Importante lembrar que o Canal Nelson Sargento, lançado a três anos, conta hoje com pouco mais de 2 mil inscritos e 18 mil visualizações, enquanto canais que são uma coletânea de “besteirol” ultrapassam a marca dos milhões de inscritos e visualizações, enchendo o bolso de quem não produz nada de relevante.

Para o jornalista cultural Luciano de Carvalho “é difícil ver um artista chegar aos 96 anos com uma obra tão vasta, se desfazendo de suas memórias porque a cultura brasileira não tem o seu devido valor. É estarrecedor constatar que este ilustre representante do samba que é patrimônio imaterial do Brasil sofre porque a futilidade parece atrair mais, inclusive em números, do que tudo aquilo que agrega mais valor ao ser humano e ao nosso país. Lamentável.”

Se refletirmos bem, chegamos a triste constatação que o Sr. Nelson Sargento não está apenas se desfazendo de bens, está sendo obrigado a dispor da própria dignidade.

Assim, lançando um olhar sobre a história do samba e a contribuição deste ilustre Senhor do Samba para a nossa cultura, é com grande pesar que publicamos esta notícia.

O samba verdadeiramente agoniza na pessoa de um dos seus mais sagrados representantes, que fez história ao escrever entre outros tantos, os versos que agora representam a sua própria vida.

“Samba
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro

Samba
Negro, forte, destemido
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro

Samba
Inocente, pé-no-chão
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram toda a sua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você nem percebeu
Mudaram toda a sua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você nem percebeu”

Agoniza mais não morre (Nelson Sargento – 1978)

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito relevante esta questão: O valor da cultura e dos idosos no Brasil é sempre deixado de lado. Isso serve pra gente refletir sobre aquilo que vemos e compartilhamos.

  2. Absuuurdo isso! Realmente as pessoas principalmente na internet só ficam vendo besteira e os conteúdos publicados dificilmente são produtivos. E quanto encontra um, quase não tem visibilidade porque é engolido pelo monte de porcaria que tem por aí. Tanta artista rico deveria ajudar Nelson Sargento. Cambada de egoísta

  3. Moro em Paris a 13 anos e fico extremamente triste com esta notícia. A cultura brasileira é conhecida como uma das mais ricas do mundo e me envergonho de ver isso acontecer com uma figura tão importante como Nelson Sargento. As vezes sinto saudade do meu país, mas isso faz qualquer saudade desaparecer. É realmente lamentável

DEIXE UMA RESPOSTA

Entre com seu comentário
Por favor, digite seu nome