Em 1959, Belo Horizonte apresentou para o Brasil a mineira Clara Nunes no concurso a Voz de Ouro do ABC. Daquele ano em diante, a música teria uma nova representante: Clara, que cantava ladainhas em latim na adolescência, tornou-se apresentadora de TV, por intermédio da saudosa Hebe Camargo. Cantava boleros mas em 1968, ao gravar “Você passa e eu acho graça” se consagrou como cantora de samba.

Seguindo a sua trajetória de sucesso como a nova voz do Brasil, Clara interpretava canções de artistas consagrados como “Morena do Mar” (Dorival Caymmi), “Clara, Clarice, Clara” (de Caetano Veloso) entre outros, alcançando a marca de mais de 100 mil cópias vendidas com o compacto simples da música “Tristeza, Pé no Chão” (de Armando Fernandes) e estreando com Vinicius de Moraes e Toquinho o show “O poeta, a moça e o violão” no Teatro Castro Alves, em Salvador, tornando-se conhecida também internacionalmente com shows em Luanda (Angola), Portugal e outros países da Europa, chegando a integrar a comissão que representou o Brasil no “Festival do Midem”, em Cannes.

Clara Nunes tornou-se a maior das divas brasileiras dos anos 70 lançando um LP de sucesso a cada ano. O LP lançado em 1971 onde aparecia com os cabelos pintados de vermelho e a roupa branca que remetia as religiões afro-brasileiras virou sucesso absoluto, com as canções “É Baiana” e o samba enredo “Ilu Ayê” da sua escola do Coração a Portela. Participou ainda de álbuns e shows de outros grandes artistas como João Nogueira, Chico Buarque, Maria Bethânia, Clementina de Jesus, batendo recorde de vendagem em 1974 com mais de 300 mil cópias vendidas. Em 1975 o LP “Claridade” com “O Mar Serenou” (Candeia), se tornou o maior sucesso de sua carreira. Casada com Paulo César Pinheiro, Clara percorreu vários países da Europa em turnê. Tinha sucesso, fama, mas não pode realizar um grande sonho: o de ser mãe, tendo sofrido forte abalo emocional ao ter que retirar o útero por causa da formação de miomas. Para superar a tristeza, entregou-se de maneira absoluta à carreira artística, compondo músicas belíssimas e de intensa carga emocional.

No inicio dos anos 80, Clara Nunes gravou o álbum “Brasil Mestiço”, que ganhou o país com “Morena de Angola” (Chico Buarque); o LP “Clara”, com destaque para “Portela na Avenida” (participação especial da Velha Guarda da Portela) e estreou o show “Clara Mestiça” (dirigido por Bibi Ferreira). Em 1982, a Odeon lançaria “Nação”, o último álbum de estúdio da cantora, se apresentando na Alemanha ao lado de Sivuca e Elba Ramalho e participando do LP “Kasshoku”, lançado no Japão.

Em 5 de março de 1983, Clara Nunes se submeteu a uma aparentemente simples cirurgia de varizes. Mas devido a uma reação alérgica a um componente do anestésico, sofreu uma parada cardíaca ficando em coma por 28 dias. Na madrugada de 2 de abril de 1983, a poucos meses de completar 40 anos, Clara Nunes morreu. O seu corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O sepultamento no Cemitério São João Batista foi acompanhado por uma multidão de fãs e amigos. Em sua homenagem, a rua em Oswaldo Cruz onde fica a sede da Portela, sua escola de coração, passou a se chamar Rua Clara Nunes.

Clara se foi. Mas a sua obra é eterna. Ela que sofreu por não realizar o sonho de ser mãe, ganhou muitas outras filhas, que, seguindo seu exemplo e interpretando suas canções, tornaram-se também dignas representantes do samba e da música brasileira.

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