“Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado. Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado.”

Ele nasceu no Recife e com 15 anos entrou em um navio de açúcar somente com a roupa do corpo, para fugir da fome.  Desembarcou no Rio de Janeiro, passando a viver e trabalhar numa  obra no centro da cidade.  Ao Deixar a construção civil, dizia em forma de brincadeira com tom de verdade: “sai do ramo porque  ia  acabar virando escada, tijolo ou um saco de cimento. Resolvi entrar na música por medo da fome”. Nesta época,  lá pelos anos de 1950, começou a sua carreira como ritmista na Rádio Clube. Iniciado na música pelo coco de Jackson do Pandeiro, tocava tamborim, surdo e diversos outros instrumentos de percussão. Mas, não se conteve com  isso: estudou violão clássico por oito anos e passou mais oito anos tocando na orquestra da TV Globo. Era um dos poucos partideiros da época que sabia ler música.

Magro, franzino, mas com uma visão aguçada dos problemas sociais, Bezerra iniciou uma vertente musical voltada para os problemas que a sociedade da época fingia não ver. Atirava contra as injustiças sociais sem medo: “Se vocês estão a fim de prender o ladrão.  Podem voltar pelo mesmo caminho, o ladrão está escondido lá embaixo, atrás da gravata e do colarinho.” Seu jeito considerado ácido para algumas camadas da sociedade, sendo apontado por vezes como um “zé mané” que queria perturbar, contribuiu com a transformação da imagem das favelas: ali não tinha só bandido, em sua maioria era gente trabalhadora que merecia respeito. Bezerra fazia questão de colocar nos seus discos, canções de nomes  desconhecidos para época. Citava todos como grandes parceiros e grandes talentos, como forma de dar o seu recado: o morro também é lugar de  gente talentosa.

Macumbeiro declarado, filho de Ogum sim senhor e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo em Belfort Roxo, Bezerra da Silva era  o rosto de uma parte da população que a mídia insistia em esconder.  Foi um campeão de vendas  ( seus mais de 25 discos venderam perto dos três milhões de cópias ) mas, durante quase toda sua vida foi excluído das salas VIP das emissoras de FM. Só tocou no Canecão em 1996, depois de mais de 20 anos de carreira e consecutivos sucessos. Apesar da sociedade tentar excluí-lo, sua ousadia rendeu frutos e influenciou o surgimento de uma nova geração de compositores, de samba ao  hip-hop, que não se limitaram a fazer canções com letras falando das aventuras boemias ou das desventuras do amor:  O traço das composições que transformaram a visão das favelas,  mostrando que o morro é lugar de  gente bonita, honesta, feliz e de talento, veio de Bezerra. Leandro Sapucahy é um exemplo dos grandes seguidores de Bezerra que trás  em suas canções a realidade das comunidades, com suas alegrias e dificuldades, transformando-se em respeitado artista, assim como Marcelo D2.

Dizem que, uma árvore boa, se conhece pelos frutos que produz.  A sociedade contemporânea aprendeu a enxergar o traço musical de Bezerra, com outros olhos.  Assim, pelos frutos que surgiram a partir do seu exemplo, o eterno representante da malandragem do samba,  conseguiu alcançar um pouco mais de reconhecimento por sua “luta por dias melhores”,  após a sua morte.  A árvore era boa…

Salve Bezerra da Silva, o malandro que não tinha nada de mané!

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